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Cuidado com a Ampulheta

Lembrando que: Sempre desconfie das segundas. Sejam elas feiras, chances ou intenções.

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evil comes from the abuse of free will - cs lewis

indigente

por Cláudio Estigma Bastos, em 14.04.18

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O terror da solidão, preferes estar mal acompanhado: amigos apenas de farra, mulheres vãs, vais a sitios que nem gostas ter com gente que mal suportas. Já ganhaste vicios como o tabaco, o alcool, drogas.. as leves primeiro, agora as outras. Estudas uma vida inteira para seres escravo de um sistema que desprezas, para puderes pagas coisas que nao te fazem falta, nem queres, não passam de coisas, objectos.

Envelheces e vês o tempo que perdeste, choras e lembras-te de quando tinhas 16 anos: vida toda a tua frente, vês-te beijar o teu amor de adolescente, aparece um homem vestido de branco que de dá a mão, leva-te, sem se apresentar nem por obséquio. Morres numa cama de hospital, na rua, em casa , encarcerado num carro, com comprimidos ainda na garganta, ou numa casa de banho pública. O terror da solidão isolou-te.

Indigente que não entende sequer o que é ser gente. O que é isso de "adulto"? 

Os pais não o entendem , nem podiam. Viver as situações parecidas em épocas diferentes faz com que as experiências não tenham nada haver uma com a outra, incompáraveis, mas tudo bem , ele nunca quis entender os pais.

Há a dúvida: quanto tempo mais vai ter de esperar? Quanto tempo vai ter de preencher as paredes do quarto com posters de desconhecidos e fotografias de amigos? Quanto tempo vai perder sem imaginar que alguns deles não vão chegar a ter idade para comprar o seu tabaco, outros vão desaparecer para sempre ao entrarem num avião. Quanto tempo mais vai perder num mundo virtual sem conseguir decidir se é ou não mais vazio do que o real?
Ninguém lhe explicou quem era Deus, só lhe mostraram pequenos deuses, mal-humorados, severos e sem sentido de humor. Deus sem sentido de humor? Inaceitável ! Nunca se conheceram , por isso nunca soube o que era amor.

Descobriu a tesão e os pais não entenderam. Quem entende um adolescente? Ninguém o entendeu nem o quis amar, ele era um mau rapaz. Nem ele entendeu que andava perdido a sofrer por amor sem o ter,  como as pessoas que sentem comichão ou formigueiro em membros amputados.


O indigente andava no meio de nós e nós não percebemos, parecia que estava tudo bem com ele: era muito brincalhão.

 

Haviam cofres e caixas e as paredes estavam pintadas, ninguém sabe o que aconteceu. Ele cansou-se de se sentir sozinho, ele cansou-se de estar cansado. Queria voar e sair daqui para fora, voar nem que fosse para outro mundo, para o céu onde houvesse um Deus que lhe contasse piadas e rissem os dois.
O indigente saltou do quarto andar e eu não me lembrei que não havia amanhã.